sábado, 25 de março de 2017

Lembrete para Trump....

No prefácio da edição alemã de 1890 do Manifesto Comunista, Engels registra como a emigração europeia possibilitou o desenvolvimento gigantesco da agricultura e da indústria dos EUA. Segue o trecho:
“Hoje, tudo mudou radicalmente. A emigração europeia possibilitou esse  desenvolvimento gigantesco da agricultura norte-americana, cuja  concorrência, está minando os alicerces tanto da grande quanto da pequena propriedade fundiária na Europa. Além disso, permitiu aos Estados Unidos a possibilidade de entregar-se à exploração dos seus abundantes recursos industriais  com tanta energia, e em tal escala, que, num curto espaço de tempo, deve que pôr fim ao monopólio industrial hoje desfrutado pela Europa Ocidental. E estas duas circunstâncias, por sua vez, repercutiram também sobre a própria América de maneira revolucionária. A propriedade fundiária pequena e média do lavrador que trabalha sua própria terra  sofre cada vez mais a concorrência dos lavradores-gigantes, enquanto, simultaneamente, começam a se  formar, pela primeira vez, nos distritos industriais, um proletariado numeroso e uma fabulosa concentração de capitais.”



sexta-feira, 24 de março de 2017

Ação revolucionária do capitalismo.

O prefácio de Engels – fevereiro de 1893 ( 10 anos após a morte de Marx) -  à edição italiana de 1893  do "Manifesto" enfatiza a ação revolucionária do capitalismo, na “saída” do feudalismo. Segue o parágrafo final.
“O Manifesto Comunista presta plena justiça à ação revolucionária do capitalismo no passado. A primeira nação capitalista foi a Itália. O termo da Idade Média feudal, o limiar da era capitalista moderna, está assinalado por uma figura gigantesca É um italiano - Dante, ao mesmo tempo o último poeta da Idade Média e o primeiro poeta moderno. Hoje, como em 1300, uma nova era histórica se destaca. Produzir-nos-á a Itália o novo Dante que assinalará a hora do nascimento desta era proletária?
London, 1 de Fevereiro de 1893.

Friedrich Engels

domingo, 19 de março de 2017

Fetichismo by Marshall Berman

Marshall Berman iniciou sua carreira de marxista desde garoto ao ler os “Manuscritos Econômico-Filosóficos”. Selecionei alguns trechos interessantes de seu “Aventuras no Marxismo” sobre o Fetichismo da Mercadoria – a contribuição original de Marx para entender, em 1867, a futura sociedade do consumo.

“ O fetichismo das mercadorias é um mito determinista criado para conservar a ordem vigente, convencendo as pessoas que nela vivem de que não tem como agir diferentemente. Imaginando-se privados de liberdade, os homens se transformam em homens sem liberdade: sua profecia de impotência se autoconcretiza.”

“ O fetichismo, portanto, impregna a exuberância juvenil do capitalismo de um fervor religioso – e de uma ingenuidade religiosa; o desencantamento surge com a plenitude dos anos e pode afrouxar o passo, mas deixa uma nova liberdade em sua esteira.”

“Homens movidos pelo “fetichismo”, seja ele religioso, político ou econômico, avançam cegamente, como locomotivas em alta velocidade numa trilha única; colidem e destroem-se uns aos outros, isso é algo que simplesmente não têm como evitar, não há nada a fazer.”



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O fetichismo da mercadoria na 2ª e na 4ª edições alemãs de O Capital.

No posfácio da 2ª edição alemã de O Capital ( janeiro de 1873), Marx faz, mais uma vez, o registro das dificuldades de entendimento do conceito de fetichismo da mercadoria.
A última seção do primeiro capítulo, «O carácter de feitiço da mercadoria, etc.», foi em grande parte alterada. ..................................................................
O método empregue em O Capital foi pouco entendido, como já o demonstram as interpretações dele, entre si contraditórias.
Assim, a Revue Positiviste de Paris censura-me, por um lado, porque trato a economia metafisicamente e, por outro lado — imagine-se! —, porque me limito a uma dissecação meramente crítica do dado, em vez de prescrever receitas ( comtianas ?) para as casas de pasto do futuro.
Contra a censura da metafísica, observa o Prof. Sieber: “Na medida em que se trata propriamente da teoria, o método de Marx é o método dedutivo de toda a escola inglesa, os seus defeitos tal como as qualidades são partilhadas pelos melhores economistas teóricos.”

Na 4ª edição alemã de O Capital ( 1890 ) – 7 anos após a morte de Marx – foram retirados do posfácio da 2ª edição os 4 parágrafos iniciais, entre eles o referente ao fetichismo da mercadoria acima descrito. A edição foi prefaciada por Engels que, sempre ignorou em seus comentários o tema do fetichismo da mercadoria. Acredito que Engels, assim como todos os marxistas clássicos, considerava o tema “metafísico/hegeliano”. Não chegando ao exagero de Althusser que sugeriu “pular”  a leitura o primeiro  capítulo....
Vale relembrar a frase inicial do 1º capítulo do volume I de O Capital: “À primeira vista, uma mercadoria parece uma coisa evidente, trivial. A sua análise mostra que é uma coisa muito retorcida, cheia de subtileza metafísica e de extravagâncias teológicas.”
Os marxistas clássicos, de ontem e de hoje, não entenderam porque o capitulo primeiro da volume I da obra máxima do alemão é dedicada à mercadoria. Sugiro a leitura de pensadores mais abertos como Hobsbawm, Dennis Collin e Moishe Postone.....


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Marx no Chicago Tribune.

A partir de 1851 e durante mais de uma década. Marx e Engels escreveram,  480 textos para o New York Tribune, sendo 350 assinados por Marx, 125 por Engels e 12 pela dupla. Na época, a publicação circulava com  200 mil exemplares diários, sendo o jornal de maior tiragem do mundo. Marx recebia 2 libras por artigo.  A coletânea dos artigos ocupam grande espaço na publicação das obras completas de Marx.
A expressiva presença no NYT rendeu grande visibilidade à dupla nos EUA. Vale o registro da amável resposta do Presidente Lincoln a uma carta de Marx.
No entanto, pouco se comenta a entrevista concedida por Marx ao Chicago Tribune, em dezembro de 1878. Embora o correspondente em Londres tivesse atribuído ao entrevistado mais de 70 anos ( vide abaixo) o “venerando alemão” ainda estava nos 60. Segue um trecho da reportagem:
“Encontrei-me duas ou três vezes com o Dr. Marx, que me recebeu em sua biblioteca, sempre com um livro numa mão e um cigarro na outra. Ele deve ter mais de setenta anos. E um homem solidamente constituído, de ombros largos e porte ereto. Tem a fronte do intelectual e os modos do judeu culto; sua cabeleira e sua barba são longas e grisalhas; sobrancelhas espessas sombreiam seus olhos negros e brilhantes.
Nada inclinado a circunspecção, reserva aos estrangeiros em geral a melhor acolhida. Todavia, o venerando alemão, que recebe o visitante, não aceita dialogar com qualquer de seus compatriotas senão quando este lhe apresenta uma carta de recomendação.
Assim que se adentra a biblioteca e Marx tenha ajustado seu monóculo, maneira de assumir a postura intelectual, abandona a reserva que até aí demonstrara. Então ele expõe, diante do visitante cativado, seu conhecimento dos homens e das coisas de todos os recantos do mundo.
Ao longo da conversa, longe de se revelar um espirito limitado, toca em tantos assuntos quantos são os volumes dispostos sobre as prateleiras de sua biblioteca. Pode-se julgá-lo a partir dos livros que lê. O leitor terá uma ideia quando tiver dito o que me revelou uma rápida olhada as prateleiras: Shakespeare, Dickens, Thackeray, Molière, Racine, Montaigne, Bacon, Goethe, Voltaire, Paine; coleções administrativas (Blues books) inglesas, americanas e francesas; obras políticas e filosóficas e russo, alemão, espanhol, italiano etc.
Para minha grande surpresa, nossos colóquios me revelaram que Marx conhecia a fundo os problemas americanos dos últimos vinte anos.
A singular justeza das críticas que dirigia ao nosso sistema legislativo, tanto o da União quanto o dos Estados, me deu a impressão de que possuía dados de fontes bem informadas. Contudo, esse saber não se limita a América, mas engloba, igualmente, toda Europa.”